Texto antiguinho, retirado do fundo da gaveta... ou do baú das minhas memórias de papel. Postei-o só para não perder o hábito. Como dizia Graciliano Ramos, é preciso não perder o hábito da palavra. Bjs.
Sua avó tinha um daqueles baús antigos, que nem o tempo era capaz denunciar-lhe a idade. Velho, sem tempo como a dona. A menina, um dia, não conteve sua curiosidade e, às escondidas, foi dar uma espiadinha pela fresta do móvel e... Deixou-se cair no chão, de tanta surpresa! Descobrira que o tal baú era, na verdade, um velho contador de histórias, um guardião do passado, e estava ali, repleto de antigas novidades, somente à espera de alguém que quisesse ouvi-lo, como antigamente.
Desde então, sempre que a avó se ausentava, lá ia a pequena encontrar-se com seu novo velho brinquedo. E os dois – a menina e o baú – passavam horas e horas conversando, o baú contando para a criança suas aventuras através dos objetos ali guardados que, para ambos, eram tesouros preciosos, recolhidos cuidadosamente ao longo dos anos sem fim: chapéus de feltro, cetim e couro, sedas e rendas, roupas velhas e desbotadas, sapatos, canetas tinteiro sem carga, frascos de perfume vazios e inodoros, papéis de cigarrilhas e chocolates, moedas de cobre, cartas e cartões postais empilhados, amarrados por um grande laço de fita quase vermelha, descolorida pelo tempo. Que segredos guardariam aquelas correspondências? Para a menina curiosa, era tudo uma nova e inusitada oportunidade de descobertas. Encontrava no velho baú a única forma de conhecer um mundo que não existia mais, viajar no tempo através de objetos mais do que mágicos, poderosos, quase místicos, amuletos preciosos pela capacidade de estimular a imaginação de uma criança. Eram eles os elos entre presente e passado, e seriam, a partir de então, o elo entre a menina e o tempo que ela descobria, dia após dia. Ah, como continha coisas, aquele baú!
Tinha também brinquedos velhos, alguns quebrados, mas outros ainda quase vivos, apenas esperando pelos bracinhos infantis que lhes devolvessem o movimento e emoção há muito tempo perdidos. Tinha uma boneca de pano desbotadinha, quase rasgada, um tambor furado, um boneco de madeira pendurado por uma cordinha em dois pedaços de pau – a cordinha partiu-se ao ser esticada, que pena! – e marinheirinhos de papel marchê. Mas o que a menina mais amava daquilo tudo eram as fotografias. Ah, como eram lindas aquelas moças fininhas, levinhas, delicadinhas, sorridentes, quase flutuando nos jardins das praças. E enchiam-se das cores dos sonhos da menina as fotografias amareladas pelos anos. Seus namorados, de certo, seriam marinheiros apaixonados, que teriam ganhado os mares deixando-as a esperá-los, e os sorrisos então se guardariam todos para a volta. De repente, carinhas conhecidas: seu pai, seus tios, estavam todos ali naquele retrato, pequeninos, aconchegados ao lado da mãe zelosa, atenta à mínima descompostura: quieto, menino. Tire o dedo da boca, já disse! Agora olhem todos pro moço. Clic! E tinha também retratos de lugares bonitos, lagos, ruas ladrilhadas de pedrinhas de brilhante, casinhas cercadas de espaço por todos os lados, jardins, quintais, bondinhos, varais repletos de roupas. A cozinha lá atrás, e o cheirinho morno de comida de milho... Quase dava pra sentir...
Às vezes, a menina se vestia com as roupas do baú, ou pelo menos tentava, com cuidado para não rasgar, não danificar nada. Eram blusas sem botões, calças infantis de pernas curtas, vestidinhos, saias... Tinha também uma roupa branca de bailarina. E uma gola de palhaço – seria aquilo uma gola de palhaço? E ela, a menina, ora era uma dançarina, ora pintava-se e virava palhaço, ora era ela mesma, e a bailarina girando leve na sua frente, e o palhaço a fazer malabarismos anunciando: Senhoras e Senhores! Para ela, pouco importava de quem teriam sido aquelas peças, nem se decerto foram um dia partes de um palco ou um picadeiro. Mas estavam lá agora, junto com a menina, e isso sim era o mais importante, o mais maravilhoso, porque naquele momento, ninguém haveria de provar que todos os sonhos não existiam, que os personagens, naqueles instantes de descoberta, não eram tão reais quanto aquela criança de olhos grandes e brilhantes a cobiçar os segredos de um tempo que não era o dela. Era algo bom, uma vontade de espiar pela fechadura da porta e encontrar-se com os personagens do seu sonho de criança, sabendo que tudo o que ela imaginava, não importa como, era verdade. Existia. O mágico de tudo para ela era descobrir uma estranha saudade de algo que ela não viveu, mas que sabia, e conhecia, e amava. E como amava...
Um dia foram-se a avó, as relíquias, as antiguidades, o baú e todos os sonhos da menina. Custou, mas ela terminou por compreender que o que o tempo dá, seja de bom ou ruim, somente ele é capaz de tirar. As maiores preciosidades de um velho baú começam com os tempos perdidos de infância, perdidos porque nem mesmo a infância dura tanto: um dia a gente cresce. No fundo, é o próprio tempo quem nos leva a esse fim: nós, as velhas crianças, só nos tornamos colecionadores e amantes das preciosidades de um tempo quando este não mais existe. Foi o que aconteceu. A menina que amava o passado cresceu e... Bom, já era hora de começar, ela própria, a juntar as suas preciosidades.