Entre Tangos & Boleros


01/02/2006


Feliz Ano Velho

            Não, não vou escrever sobre o livro do Marcelo Ruben Paiva. É que com exatamente um mês de atraso decidi me despedir do ano de 2005. Com o passar dos anos – e olhe que já se vão 33 deles – parece que a vida vai ficando meio repetitiva. Talvez por isso já não seja mesma a empolgação para comemorar anos que se vão, anos que vêm... Enfim, decidi finalmente me despedir de 2005, um ano aparentemente normal, repleto de fatos, acontecimentos, coisas boas e não tão boas assim. Mas um detalhe, ao menos, diferencia este ano dos anteriores, o que me faz ter uma relação distinta com esse ano. Poderia chamar 2005 de “o ano da descoberta”. Ou melhor, de “o ano da consciência”. Descoberta de que os anos que passei nas academias – quatro anos que foram prolongados para nada menos do que doze –, os anos de suposta preparação para a vida, para o exercício de uma profissão foram, na verdade, os melhores anos da minha vida. Consciência de que eles, e consequentemente os dias felizes que eles me deram, jamais se repetirão.

Certa vez minha tia, discutindo sobre esse tempo exageradamente prolongado de estudos, me perguntou quando eu iria “ser gente”. Logo entendi que ser gente, para ela, seria algo mais ou menos parecido com casar, ter filhos, ter um diploma, partir para o mercado de trabalho, abraçar a profissão e ganhar muito, muito dinheiro para comprar uma boa casa, um bom carro, e etc., etc., etc. Claro, o lógico da história é pensar que um tempo prolongado de “formação” garantiria, automaticamente, um bom rendimento, uma boa carreira, um bom emprego, uma família. Hoje, exatamente hoje, poderia responder-lhe duas coisas. Primeiro que essa lógica neoliberal só faz sentido na teoria. Segundo, que foram exatamente durante esses doze anos que, mesmo sem quase nada disso acima descrito, experimentei grandes oportunidades de viver, de me apaixonar, de vivenciar as melhores experiências que a vida me deu, de conhecer pessoas e lugares que definitivamente marcaram minha vida. Em João Pessoa, por exemplo, tive dias de rainha, e também de indigente; já dormi ao relento, mais especificamente em uma pracinha, em pleno carnaval em Olinda; já passei frio em Campina Grande e tomei um porre de conhaque para agüentar a noite longa; vi a neve na Itália, além de uma porção de outras coisas; conheci, e mais que isso, tive contatos imediatos de vários graus com outras culturas e civilizações; vi o bom e o ruim que uma cultura, através de seus homens, pode legar à humanidade. Já namorei a Geografia e a História, mas tive mesmo um tórrido caso de amor com a Cultura, essa entidade plural, contraditória, antagônica e apaixonante. Minhas viagens, meus amores, minhas paixões, minhas escolhas aconteceram nesses doze anos. Durante. Não depois. Por isso, eu responderia à minha tia, ainda, que para mim “ser gente” não é colecionar diplomas. Não é assumir seu lugar na sociedade. “Ser gente”, sentir-se um ser humano, é sentir dentro de si a capacidade de amar, de se apaixonar pela vida, e exercitar, simples e naturalmente, essa capacidade. Claro, isto é uma opinião pessoal e intransferível. Talvez até única. E talvez, também, um pouco contraditória. Pensando bem, eu não responderia nada a minha tia, afinal, ela deve estar bem mais resolvida na vida dela com seus pontos de vistas...

A sensação que tenho é a de ter corrido, corrido, corrido, e agora, de ainda ter que correr, correr, correr, mas sem a paisagem colorida do caminho de antes, e principalmente sem pódio de chegada ou beijo de namorada, como disse Cazuza. Claro que desejo, do fundo do meu coração, que isso seja transitório e que dure o tempo que tenha de durar, mas que passe. Afinal de contas, eu ainda estou convicta que euzinha vim ao mundo a passeio.

Só pra terminar – eu nem sei por que comecei a escrever isso – gostaria de deixar claro que apesar de tudo, 2005 foi um ano bom. Levei algumas quedas, me machuquei, tomei rasteiras inesperadas, cometi erros – muitos, aliás – mas sobrevivi, e sobrevivi tentando acertar, por mais difícil que tenha sido, algumas vezes, fazer a escolha que julguei ser a certa. E estou sobrevivendo. No trabalho, estou tentando – e acho que isso será um tentar eterno – seguir outros rumos, evitar as decepções que o ano me trouxe. Quanto às paixões mais, digamos, humanas, 2005 me deu apenas um presente, mas um presente raro e fugaz, quase efêmero, que passou pela minha vida só pra me lembrar que, apesar de tudo, o coração ainda pode bater mais forte, bem mais forte. Infelizmente só restou dele uma saudade sem tamanho e uma esperançazinha escondida, que ainda tem cheiro de chuva e sabor de mar. A saudade, afogo-a em vinho, de vez em quando. A esperança, prefiro guardá-la só pra mim.

 Então é isso. Despeço-me de 2005, sem muita empolgação com o ano de 2006, que já começou faz um mês e, sinceramente, ainda não deu sinais de mudanças. Mas continuo esperando... Agora pelo carnaval.

Escrito por bolerina às 15h03
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, NATAL, REDINHA, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, Italian, Arte e cultura, Arte e cultura
MSN -