Entre Tangos & Boleros


10/02/2006


Ausências

Ontem recebi um e-mail que comunicava a morte de um amigo. Falar de morte é sempre difícil porque a morte implica, em primeiro lugar, numa perda. De fato, há uma perda física, a perda do convívio com todas as pessoas que passam pela nossa vida e que um dia se vão. Há pessoas que se vão porque viajam; há pessoas que se vão, embora estejam fisicamente perto, quando escolhem outros caminhos e, voluntariamente ou não, se distanciam de nós; e há aquelas que se vão porque, enfim, morrem. Aos amigos distantes, mas vivos, tentamos sempre minimizar a perda física pela esperança de um reencontro ou pela certeza de que, por exemplo, um amigo que deixamos pelo caminho vai viver outras experiências, conhecer outras pessoas, aprender, ter, ele também, outros ganhos e perdas porque, assim como para nós, para ele a vida também continua. E a ele, desejamos boa sorte, desejamos um futuro promissor, projetamos perspectivas. Mas perder um amigo para a morte é sempre mais doloroso porque sabemos que, para aquele de quem tanto gostamos, a vida acabou. Não há sorte. Não há futuro. Não há perspectivas. Acreditamos na perda e  passamos conviver com esse sentimento de ausência que dói, lateja, que dilacera o peito abrindo feridas que, quando o tempo cura, transformam-se em tristes cicatrizes. Pensando nisso – e talvez até para minimizar a dor dessa perda – é que penso que, ao contrário da ausência, podemos, sim, ver a realidade de forma diferente, pois nem mesmo a morte, a maior de todas as ausências, tem o poder de suprimir a força inesgotável da memória. Pois é nela, na memória, a partir de então, que nossos amigos que se vão encontram espaço na vida da gente. Acredito que a memória é uma casa onde cabe tudo, mas lá dentro, é em um espaço muito especial que estão os nossos amigos ausentes. E se, como se diz, cada vez que lembramos de algo revivemos, de forma mental, essas lembranças, com toda a carga de emoção que elas trazem consigo, então posso crer sem culpa que as pessoas que passam pela nossa vida, e em especial aquelas de quem gostamos, nunca morrem. Seus corpos são flores que o jardineiro da vida um dia colheu, mas, de alguma forma inexplicavelmente bela, suas almas continuam vivas dentro de nós. Creio nisso, então, para lembrar-me delas em seus momentos mais felizes, sentindo-me feliz, eu também, com essas lembranças. E porque a vida é uma constante transformação, prefiro, então, não acreditar na morte, mas na força infinita do que move o universo, do que faz a terra girar e nos proporciona, todos os dias, espetáculos de vida. Como as lagartas que ganham asas e viram borboletas, meus amigos que se vão estarão sempre vivos em mim. Por isso, apesar da dor e da saudade, aceito que eles batam, enfim, as asas que Deus lhes deu, transformando a perda em saudade, a dor em esperança, a morte em certeza de vida e a vida em um presente divino.

 

Em memória de Andrea Liberati, professor de capoeira que me acolheu como uma irmã, na sua academia e no seu coração. Roma, o Brasil, a Capoeira e as pessoas que te amam ficaram um pouco mais tristes depois da sua partida, mas você vive, e viverá sempre, em cada um de nós.

Escrito por bolerina às 15h03
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, NATAL, REDINHA, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, Italian, Arte e cultura, Arte e cultura
MSN -