Entre Tangos & Boleros


17/02/2006


Velho Oeste

Eram umas quatro da tarde, não mais que isso, quando passamos pela serra, em direção ao oeste, sempre oeste, até onde aquele asfalto nos levasse. Fugir de si mesmos todos tentavam, mas talvez já fosse tarde até para isso. No rádio do carro, uma música americana estridente, irritante, confundia-se com gritar do cérebro, das imagens emergindo em um turbilhão de idéias desconectas. Era aquela a trilha sonora perfeita para a loucura. O olhar no horizonte e uma imensidão de azul de meter medo, azul manchado apenas por solitárias nuvens brancas, quase tufos de algodão, isoladas uma das outras, e eram tantas que faziam daquilo um perder de vista sem fim. O azul primeiro e último, uma saudação também despedida, e isso era tudo o que passava em nossas cabeças no meio o turbilhão de idéias que, se algum sentido tinha, era provocado pela irritante música americana. O velho oeste, a direção do pôr-do-sol, isto é o que se aprende na escola, que o sol se põe no oeste, mas o sol não se põe, é a terra que gira em torno de si mesma e em torno dele, se aprende assim, a grande ilusão de sentido de sempre parecer que o sol é que gira em torno da terra, assim como parece à vida acontecer em torno das pessoas, mas as pessoas são mesmo pequenos e insignificantes estilhaços de vida. E ali, pequenos, secos e insignificantes. O sol, aquele sol escaldante sempre à frente do automóvel, era o sol mesmo e o de sempre, naquela história, a indicar o caminho. O reflexo do sol no pára-brisa dava uma sensação de mais calor ainda, e o suor já lavava nossos corpos e espíritos ressequidos quando nos demos conta de que o sol, naquela estrada sem fim, era nosso guia. O sol, a música, o suor, o azul. Que sentido teria tudo aquilo? Sentidos eram precisos. Olhar para frente, estar sempre atento, e até que a estrada estava boa, surpreendentemente boa para uma estrada que leva a lugar nenhum, como é o que dizem aqueles que não vivem, que nunca sujaram seus pés, que nunca respiraram o ar seco do oeste, que nunca cruzaram as serras, que nunca sequer viram a paisagem de pedras e desolação em tempos que Deus desiste daquele lugar e dos poucos bichos e gentes que ali teimam viver. A estrada estava boa. Talvez possa ter havido alguma mudança. Talvez ainda haja escolha. Talvez haja sentido. Talvez. E a paisagem, a mesma, mesma de sempre. Vamos em frente nesse dia sem fim. Nada de novo para quem sabe que Deus nunca escolheu passar as férias nesse velho oeste.

 

Escrito por bolerina às 19h08
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